Alta do diesel superou os 20%.
Porthus Junior / Agencia RBS
Impactos do conflito entre EUA, Israel e Irã vão desde os combustíveis até a política de juro no Brasil
Alimentação deve sentir os primeiros efeitos da elevação dos preços dos combustíveis.
Com a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã na sexta semana, aumenta a apreensão sobre a intensidade dos efeitos do conflito no bolso da população. No Brasil, a situação não é diferente.
Mesmo que de forma indireta, um dos sintomas já observados no país é o aumento de preços nos combustíveis. Com a falta de um apaziguamento, a tendência é de que outros itens usados no dia a dia das famílias também fiquem mais caros, segundo especialistas ouvidos por Zero Hora.
Inicialmente, a alimentação tende a ser o grupo a sentir os primeiros efeitos da elevação dos preços dos combustíveis. Isso pode ocorrer de forma mais clara ainda em abril, afirmam fontes consultadas pela reportagem.
— A alimentação você tem de escoar toda hora. Você planta e manda, planta e manda. É um negócio frequente. Toda vez que a gente tem aumento em combustíveis, pode ter um aumento, sim, também nos preços dos alimentos. Esses são os primeiros impactos. Mas, a depender de quanto tempo essa guerra durar, esse efeito pode também se espalhar um pouco mais pela economia — alerta Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos.
Alta do diesel superou os 20%.
Como o conflito ocorre em uma das regiões com maior produção e exportação de petróleo no mundo, um dos primeiros efeitos de tensões como a atual é o espraiamento para os preços dos combustíveis nas bombas. Nesse primeiro momento, o governo tem atuado para evitar o repasse dos preços internacionais. No entanto, a própria incerteza e as especulações que rondam a possível diminuição da oferta de petróleo provocam repercussão nos preços.
O preço médio do diesel comum passou de R$ 6,03, na semana de 22 a 28 de fevereiro de 2026, para R$ 7,45 na semana entre 29 de março e 4 de abril, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Isso representa uma alta de 23,6%. Já o diesel S10 aumentou de R$ 6,09 para R$ 7,58 no período — alta de 24,5%.
— Já começamos a sentir no preço dos combustíveis, na bomba. Embora não tenha havido aumento na refinaria, o preço da gasolina já subiu em várias cidades, aproximando-se de R$ 7 — destaca o economista André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
O professor Mauricio Weiss, do Programa de Pós-graduação profissional em Economia (PPECO) da UFRGS, afirma que parte desse aumento dos combustíveis não ocorre, ainda, diretamente pelo conflito. Mas sim pelo fato de a cadeia desse produto ser longa e contar com movimentos especulativos em momentos de crise.
O subsídio de R$ 1,20 por litro de diesel importado, divivido entre União e Estados, foi confirmado pelo governo federal, que também vai anunciou uma subvenção de R$ 0,80 no diesel produzido no país.
Fertilizantes podem pesar na conta do agronegócio se conflito persistir.
O aumento no preço do diesel também preocupa o setor agrícola. Como estamos na época da colheita de grãos, principalmente da soja, eventual falta ou aumento de preço do combustível tende a pressionar os custos dos produtores, que usam o produto nas máquinas.
O coordenador do Índice de Preços ao Consumidor do FGV Ibre também afirma que, em abril, a inflação aos produtores já deve ser percebida com maior intensidade.
Esse seria o primeiro impacto no campo, segundo especialistas. No entanto, caso a guerra ultrapasse a primeira metade do ano, os efeitos podem escalar. Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos, cita outro item que pode entrar nesse cenário:
— Se a guerra entrar no segundo semestre deste ano, a gente vai pegar o momento em que os agricultores brasileiros vão precisar comprar fertilizantes. E aí você vai ter também um impacto importante sobre os preços agrícolas.
Alimentos in natura já devem ter alta neste mês.
A alta nos preços dos combustíveis também é transferida em parte para outros itens. Com o protagonismo do modal rodoviário no transporte brasileiro, qualquer oscilação no diesel respinga no preço dos produtos transportados. Um dos primeiros grupos a sentir esse repasse é o dos alimentos.
Marcela Kawauti também estima produtos com preços mais salgados nas gôndolas, principalmente os in natura, como frutas e legumes:
— Tem, por exemplo, vegetais folhosos, que estragam muito rápido, frutas. Porque esses são os que você tem que colher toda hora. Quanto menos o produto dura, mais é a frequência de transporte e aí é mais difícil você conseguir fugir desse aumento de frete. Alimentos in natura em geral, a gente já pode esperar um aumento neste mês. Inclusive, no dado que vai ser o IPCA de março, já podemos ver um aumento, ainda que não seja gigante.
Marcela entende que, após essa fase inicial, caso o conflito não arrefeça, outros itens, como arroz e feijão, também tendem a ficar mais caros.
No Rio Grande do Sul, parte desse aumento de preços nas gôndolas já começa a ser sentido, segundo o presidente da Associação Gaúcha de Supermercados (Agas), Lindonor Peruzzo Junior:
— Pega itens como carnes, hortifrutigranjeiros, produtos que têm um giro mais alto e são impactados porque essa mercadoria é renovada praticamente semanalmente. Todos os produtos perecíveis são os afetados antes dos demais. Também entram nessa leva iogurtes, leites, por exemplo.
O economista do FGV Ibre André Braz estima que essa subida de preços nos alimentos já deve começar a ser sentida com mais força neste mês de abril.
Querosene de aviação subiu 55%.
A tensão bélica também afeta os preços das passagens aéreas. Isso porque a crise do petróleo também respinga sobre o querosene de aviação (QAV), principal combustível das aeronaves. Na semana passada, a Petrobras anunciou elevação de 55% no preço do QAV. Com combustível mais caro, aumentam os custos das companhias aéreas, que acabam repassando parte desse aumento nos preços aos passageiros.
— Provavelmente, a gente não vai ver um reajuste no transporte público, mas vai ver reajuste em outros tipos de transporte, como o de turismo. Você pode ter aumento de transporte por aplicativo, das passagens aéreas, que com certeza vão subir.
Nesta semana, o tema entrou no radar do governo federal. Um decreto zera o PIS e a Cofins sobre o combustível de aviação, com economia prevista de R$ 0,07. Além disso, duas linhas de crédito de até R$ 9 bilhões foram liberadas para o setor aéreo.
Outros itens
No caso de a guerra persistir, com preço do barril de petróleo ainda acima dos US$ 100, existe uma tendência de o aumento de preços se espalhar para outros ramos, como o de embalagens plásticas e de químicos em geral. O economista André Braz, do FGV Ibre, destaca esse movimento:
— À medida que os meses vão passando, essa escala vai aumentando. A pressão vai chegando em outros setores. Como o petróleo é matéria-prima para vários segmentos, como garrafa PET, poliéster do vestuário, adubos, fertilizantes, defensivos etc. O preço do petróleo nesse patamar só espalha cada vez mais a inflação. Então, é uma luta contra o tempo.
Inflação e juro
Com a tendência de itens que tradicionalmente estão no dia a dia da população ficarem mais caros, a inflação também tende a subir. Antes do conflito, boa parte do mercado e dos analistas projetavam uma inflação que ficava abaixo dos 4%. Com a escalada do embate, as estimativas já rondam o teto da meta para este ano — que é de 4,5%.
Nesta segunda-feira (6), o relatório Focus, do Banco Central, apontou uma projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 4,36% em 2026. Há um mês, o boletim citava IPCA em 3,91%. Ou seja, a maior parte do mercado já precifica uma inflação perto do limite da meta e até flertando com estouro.
— Se a situação permanecer como está, deve ficar acima do limite superior da meta, de 4,5%. Agora, uma parte desse efeito ainda é reversível, dependendo da duração da guerra. Se a guerra terminar ainda dentro do primeiro semestre, pode ser que a gente tenha tempo ao longo de 2026 de ver a reversão desse movimento.
Inflação mais elevada volta a acender alerta na política monetária. Caso o repique dos preços se confirme nos dados do IPCA nos próximos meses, o Banco Central tende a não encontrar ambiente para cortar o juro básico com maior intensidade.
— Pode afetar o ritmo de quedas da Selic, uma vez que a última ata do Comitê de Política Monetária demonstrou preocupação. Esse cenário pode afetar então tanto pela questão do câmbio, pela maior incerteza dos fluxos de capitais internacionais, quanto pelo impacto direto na inflação em razão do aumento dos combustíveis — destaca o professor Mauricio Weiss, da UFRGS.
E se a guerra acabar nos próximos dias?
Barril do petróleo passou de US$ 100 após restrições no Estreito de Ormuz.
Especialistas destacam que, mesmo no caso de cessar-fogo ou fim da guerra, a descompressão nos preços ao consumidor não é imediata. Isso porque muitas estruturas de produção de combustíveis foram danificadas, o que demanda altos custos para reparos, e existe um espaço de tempo para normalização do transporte internacional. Com isso, a tendência é de seguirmos com valores maiores em alguns produtos meses após esse eventual apaziguamento.
— Se o conflito terminar, não significa que o preço do barril de petróleo vai voltar para a faixa dos US$ 70 de imediato. Pode até voltar a esse preço, de forma lenta. Então, a gente vai ter um impacto de qualquer jeito. Terminando a guerra agora ou sustentando por mais tempo, os impactos dela vão permanecer na inflação de 2026.
Autor/Fonte/Veículo: GZH
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