Enquanto os EUA lançam estratégia para expandir o mercado global de biocombustíveis, o Brasil adota medidas que barateiam combustíveis fósseis, prejudicando o etanol e a segurança energética a longo prazo.

Os Estados Unidos acabam de deixar claro como enxergam biocombustível: não é só política ambiental, é política agrícola, energética e comercial ao mesmo tempo.

Em 16 de setembro, o USDA lançou o American Biofuels Trade Outlook, uma estratégia de quatro frentes para expandir a mistura de etanol na gasolina em outros países, remover restrições aos biocombustíveis americanos, abrir novos mercados e atuar dentro da ICAO e da IMO.

América Latina e Sudeste Asiático foram nomeados prioridade para adoção do E10; Índia, Indonésia, Japão e Vietnã aparecem como alvo explícito de expansão.

A lógica é direta: mais E10 e E15 no mundo é mais etanol vendido, e mais etanol vendido é mais demanda pelo milho do agricultor americano.

Não é mercado pequeno. Na safra 2024/25, os EUA exportaram recorde de 2,13 bilhões de galões de etanol e destinaram 5,44 bilhões de bushels de milho à produção do combustível, 36% de todo o milho consumido no país. Em 2025, isso rendeu 2,2 bilhões de galões exportados por US$ 4,7 bilhões.

O Brasil, na mesma semana, seguia direção contrária: remendando o mercado interno em vez de abrir mercado lá fora.

Até 9 de setembro, a gasolina tinha subsídio direto de R$ 0,44 por litro. Quando o mecanismo venceu, o governo cortou PIS/Cofins da gasolina em R$ 0,63 por litro, quase 40% a mais que o benefício anterior. E o diesel, por fora, recebeu subvenção pública de R$ 1,00 por litro.

O resultado já aparece no posto.

Segundo o especialista José Carlos Nastari, a relação de preço entre etanol e gasolina chegou a 74,5% na Paraíba, perto do limite de 70% a partir do qual o biocombustível deixa de compensar para motoristas flex. E o governo segue adiando, sem custo de subsídio nenhum, o aumento da mistura obrigatória de etanol na gasolina, de 30% para 32%, represado há meses.

É preciso proteger o consumidor de choques externos no petróleo?

Sim. Mas a forma importa.

Baratear gasolina e diesel com dinheiro público reduz justamente o sinal econômico que faria o país substituir petróleo por energia produzida no campo.

Os EUA, com etanol de milho agronomicamente pior que o nosso de cana e de milho (segunda safra), usam diplomacia comercial para conquistar mercado lá fora. O Brasil, dono do melhor etanol do planeta, gastou a semana segurando o preço do concorrente fóssil em casa.

Segurança energética não é só ter petróleo. É depender menos dele. O petróleo vem do subsolo. A bioenergia vem do campo. O Brasil precisa decidir qual dos dois quer estimular.

Autor/Fonte/Veículo: Jornal Cana

*As notícias de outros veículos de comunicação postados aqui não refletem necessariamente o posicionamento do Sindesc.