Foto: Setor canavieiro busca autonomia e tecnologia brasileira promete converter motores a diesel para rodar só com etanol e reduzir até 60 por cento do custo do CTT.
Startup E OXY apresenta solução para converter motores a diesel de colhedoras, caminhões e tratores para operar só com etanol hidratado, prometendo cortar custos e reduzir emissões em usinas canavieiras
A conta do diesel no setor canavieiro continua alta e pressionando margens. Em muitas usinas do Centro Sul, o combustível fóssil responde por quase um terço do custo de Corte, Transbordo e Transporte. Nesse cenário aparece a E OXY, startup brasileira que quer trocar o diesel pelo etanol hidratado produzido dentro da própria usina.
A proposta é ambiciosa e coloca o Brasil no centro do debate sobre descarbonização do transporte pesado.
A empresa desenvolveu uma tecnologia de conversão de motores a diesel para Ciclo Otto, permitindo operação com 100 por cento etanol hidratado, sem mistura e sem aditivos.
A ideia é que colhedoras de cana, tratores e caminhões passem a rodar com o mesmo biocombustível que sai das dornas de fermentação. Segundo a E OXY, os testes indicam reduções de 40 a 60 por cento no gasto total com combustível e até 60 por cento na manutenção.
O apelo vai além da economia imediata. A startup fala em “autonomia energética real” para usinas, que deixariam de depender de um diesel caro, importado e sujeito a variações cambiais. Em vez disso, poderiam planejar a safra com base em seu próprio etanol, ajustando estoque e preço conforme a dinâmica da moagem. Para um setor ciclicamente pressionado por custos logísticos, a mudança pode alterar a forma de pensar o CTT.
Os primeiros projetos pilotos são negociados com usinas do Centro Sul, com foco na safra 2026 27. A tecnologia também está sendo apresentada a frotas urbanas e rodoviárias interessadas em reduzir emissões e exposição ao diesel.
Se os resultados de campo confirmarem os números de laboratório, a conversão pode inaugurar uma nova fase para o uso de etanol como combustível em motores pesados no Brasil.
Como a tecnologia da E OXY converte motores diesel para etanol hidratado
A solução da E OXY parte de um conceito já conhecido na engenharia, mas pouco explorado em escala comercial: transformar um motor de Ciclo Diesel em Ciclo Otto, com ignição por centelha. Na prática, o sistema de injeção é redesenhado e a câmara de combustão passa a trabalhar com mistura ar combustível adequada ao etanol hidratado. Módulos eletrônicos controlam ponto de ignição e temperatura para garantir estabilidade mesmo em carga pesada.
De acordo com a empresa, a tecnologia está validada hoje para motores entre 150 e 500 cavalos, faixa típica de colhedoras, caminhões e máquinas agrícolas. Componentes internos recebem ajustes específicos para suportar o novo regime térmico, e o gerenciamento eletrônico é dedicado ao etanol, permitindo compensar variações de pureza e teor alcoólico ao longo da safra.
A conversão é reversível, o que dá uma espécie de seguro para a usina voltar ao diesel se algum dia for necessário.
Pesquisas acadêmicas brasileiras já vinham testando, desde os anos 1980, motores diesel convertidos para operar com álcool etílico hidratado em Ciclo Otto, com resultados positivos de desempenho e emissões. A diferença agora é levar essa solução para um pacote industrial escalável, com suporte técnico, protocolos de segurança e foco direto em aplicações de alto esforço no campo e na estrada.
Economia de CTT e redução de custo logístico nas usinas canavieiras
Nos canaviais, o diesel costuma representar entre 28 e 34 por cento do CTT, que soma as etapas de corte, transbordo e transporte da cana até a usina. Qualquer economia de 10 por cento no gasto com combustível já reduz o CTT total em algo próximo de 3 por cento, o que faz diferença em margens apertadas.
Os testes da E OXY falam, porém, em cortes de 40 a 60 por cento no custo total de combustível, o que mexe diretamente na competitividade da tonelada de cana colhida.
Mesmo com consumo volumétrico maior, estimado em cerca de 1 litro de diesel equivalente para 1,37 litro de etanol, o custo final ainda tende a ser menor para usinas que produzem seu próprio biocombustível.
O motor passa a trabalhar mais limpo, sem fuligem e sem enxofre, o que diminui desgaste de pistões, anéis e sedes e reduz paradas de manutenção. A startup afirma que a soma da economia em combustível e em peças pode encurtar significativamente o payback da conversão de cada máquina.
Etanol como biocombustível brasileiro para descarbonizar o transporte pesado
O etanol de cana já é peça central da matriz de energia renovável do Brasil, competindo diretamente com a gasolina no ciclo Otto leve. Estudos da Empresa de Pesquisa Energética apontam que, somando etanol e biodiesel, os biocombustíveis responderam por algo em torno de 22,5 por cento da energia consumida nos transportes em 2023, participação incomum em países de grande porte.
Especialistas em bioenergia destacam que o etanol de cana brasileiro é um dos combustíveis de menor pegada de carbono do mundo, graças à alta produtividade agrícola, à cogeração de bioeletricidade e às melhorias de manejo ao longo das últimas décadas.
Relatórios de entidades como a UNICA e o CNPEM mostram que a expansão para etanol de segunda geração reforça esse papel estratégico. Converter motores pesados para o uso direto de etanol hidratado amplia ainda mais essa vantagem.
Há outras iniciativas no país testando etanol em veículos pesados, como ônibus urbanos dedicados ao combustível e projetos de “diesel verde” que usam etanol hidratado como substituto do diesel sem alterar o motor. O que diferencia a E OXY é a conversão profunda do conjunto mecânico para Ciclo Otto, o que teoricamente permite ganhos maiores de eficiência e controle de emissões, ainda que com maior complexidade de engenharia.
Segundo a startup, a substituição integral do diesel por etanol reduz em mais de 98 por cento as emissões de CO₂ equivalente na análise “well to wheel”. Em grandes frotas agrícolas, isso significa centenas de toneladas de emissões evitadas por safra, com impacto direto em metas corporativas de ESG e em programas de descarbonização.
Os motores convertidos também emitem menos particulados e óxidos de enxofre, o que tem reflexos em saúde pública, sobretudo em regiões de intenso tráfego de cargas.
No plano econômico, a operação com etanol hidratado certificado gera créditos de descarbonização no RenovaBio, os CBios. A E OXY estima algo em torno de 20 mil reais em CBios para cada 100 mil litros de diesel substituídos, o que pode somar dezenas de milhões em projetos de grande escala. Para produtores de cana, isso reforça o etanol como vetor energético nacional e fonte adicional de receita.
Limitações, regulamentação e próximos passos para a tecnologia E OXY
Nem tudo, porém, está resolvido. Por enquanto, a tecnologia está focada em motores de médio porte, e versões para potências menores exigem desenvolvimento e calibração específicos. Em aplicações marítimas, normas internacionais ainda proibem o uso de etanol como combustível principal, o que impede a adoção imediata em embarcações de cabotagem e hidrovias.
Em máquinas agrícolas e caminhões, não há hoje exigência de certificação formal da ANP ou do Inmetro para esse tipo de conversão, mas a E OXY afirma estar estruturando dossiês técnicos e protocolos de segurança com foco em futuras homologações.
Cada processo de conversão leva hoje de quatro a seis semanas, com meta de cair para poucos dias em escala industrial, aproveitando inclusive o tanque que antes recebia o reagente ARLA. A grande questão será provar, na safra e na estrada, que a solução é robusta, segura e financeiramente vantajosa também para frotas que não produzem o próprio etanol.
FONTE: Click Petróleo e Gás
*As notícias de outros veículos de comunicação postados aqui não refletem necessariamente o posicionamento do Sindesc.